10/12/2016

Rua Augusta, 2016

O casal desce a rua Augusta. Em seus quarenta anos de idade, sentem que aquela rua já não pertencem a eles. Cabelos coloridos sobem, tatuados descem, piercings saltam sob seus olhares enquanto mais de uma dezena de camelôs vendem shots de bebida a 5 reais. “Aceitamos cartão”, gritam.
A cada 100 metros, uma fila de jovens se espremem para entrar no inferno. Ou em algum outro lugar escuro, com neon vermelho e que leva um nome diabólico. É impressionante como conseguem, em meio ao vento gelado da capital paulista, sentir o calor do local já na porta. Putas conversam na frente de boates com um sutiã para três números menores.
Definitivamente, nós estamos ficando velhos, diz ela. Total Blade Runner.
Ele sorri. Como se essa turma soubesse o que é Blade Runner, responde.
E continuam caminhando em direção ao centro, segurando a sua garrafa de água plástica. O passo não é corrido, até porque é impossível andar ligeiro. Entre pessoas andando em qualquer direção, vendedores ambulantes com direito a brigadeiro de maconha, tem ainda os inúmeros buracos nas calçadas. A rua não é uma selva. É uma loja de pets que ganharam um dia livre no parque.
Perto da Praça Roosevelt, uma sombra toma conta nas costas do casal. Ela imediatamente olha para trás.
Calma, não precisam me olhar assim.
Assim como?, responde ele.
Só porque eu sou branco não quer dizer que vou roubar vocês.
Mas quem achou isso?
Olha só, não tenho arma alguma.
Eu também não tenho, e eu sou negro, ela é negra. Somos três merdas com cores diferentes. E daí?
Aí sim. Respeito, parça.
Trocam cumprimentos.
O branco continua a falar.
Porque as pessoas desconfiam só porque eu sou branco, já olham diferente, achando que vou roubar.
Mas quem está achando isso aqui?
Todos acham. E olha só. Sou trabalhador, estou saindo do trabalho e voltando para casa.
Todos nós estamos.
Mas a minha mulher me deixou. E olha, nunca roubei ninguém. Já matei 18. E você, quantos matou?
Nenhum, diz ele. Ela continua calada.
Mas eu já matei 18, nunca fui polícia, tenho arma aqui na mochila, mas não vou fazer mal a vocês, muito menos a essa moça. Se alguém fizer mal a essa moça, aponta para a negra. Daí eu vou fazer mal a essa pessoa. Daí eu mato.
Não será necessário, tenho certeza. Agora, fica na paz, nós vamos atravessar aqui, diz ele, percebendo que já havia dado a hora daquela conversa à meia-noite.
O branco olha nos olhos do negro, percebe que ele quer ir para a Praça Roosevelt.
Eu andei muito de skate, mas naquelas ramponas. Eu fui bom, muito bom. Sabe qual sempre foi minha alegria? O skate.
E o branco, visivelmente embriagado, começa a chorar.
Olha, eu sei que vocês precisam ir, mas é verdade. O skate era minha vida, fiz muito dinheiro com skate. E agora, agora não tenho nada. Calma, calma, diz levantado a camiseta. Não estou armado, estou limpo.
O casal negro se olha rapidamente e escuta o choro do branco, ali bem em cima Radial Leste, os carros passando em seus 50km/h, a moto da pizza descendo a Augusta com o escapamento aberto, o cheiro da maconha saindo sabe-se lá de onde.
O farol para pedestre abre, o negro dá um abraço no branco e se despede. O casal negro continua sua caminhada. Agora, em silêncio.
Acho que essa rua tem lugar também para seus quarentões.


27/09/2014

Na fila com Galvão Bueno

 Em uma viagem aérea só tem um lugar em que você, um simples mortal, tem a chance de ficar no mesmo pedestal que um cara da primeira classe. Na fila de espera do “onde porracaraleo foi parar a minha mala”.

É a única forma de você descobrir que viajou no mesmo voo que Galvão Bueno.

Galvão e sua mulher estavam lá, reclamando pela falta da mala. No caso deles, algo realmente inacreditável. Uma mala não havia, até o momento, sido registrada que fora embarcada.

Com uma calça jeans escura, um sapatênis e camiseta polo, o narrador, sem gritar, sem alterar o tom de voz ou mesmo de abusar do errrrrre, falava e falava e falava de sua indignação com uma suada moça da companhia aérea. Um outro funcionário engravatado da cia. estava dando assistência visivelmente com cara de que tinha que ter estudado para ser outra coisa na vida.

Galvão falou mais um pouco, deixou sua mulher assinar a papelada e esperou fora da linha de atendimento.

Já eu fui atendido na sequência e descobri que a última mala chegou por um canto porque a dita cuja era muito grande. E era mesmo.

Na fila da alfândega, eu e Galvão passamos reto. No free shop, sim ele também frequenta os mesmos lugares do que eu, obviamente foi reconhecido. E posou para selfies e acenou. Como se nada tivesse acontecido.

Neste momento você lembra do que escreveu uma vez um tal de Verissimo: agradece pelo seu avião não ter caído senão seu nome só apareceria na lista do: "veja galeria de quem também morreu no voo do Galvão” e uma foto sua sorrindo retirada do facebook.

27/07/2014

O grupo da morte

Alemanha, Irã, Israel e Argélia.

Nunca o termo grupo da morte se encaixou tão bem. Ironia à parte, o sorteio fora feito e nada conseguiria mais alterar o rumo.

Muitos dirigentes e políticos tentaram cancelar e cobrar um novo sorteio. Outros falaram em marmelada, jogo político. As mídias sociais explodiram com tamanha coincidência. Afinal, quem acredita em tanta coincidência?

A Fifa, porém, se defendeu. Sempre deixou claro as regras. O que não pode acontecer, diz a entidade, é dois países do mesmo continente se enfrentarem na fase de grupos, com exceção, obviamente, da Europa.

A empresa dona da Copa lembrou que não partiu dela a ideia de tirar Israel da federação asiática e colocar na Europa.

Comentaristas da CNN e BBC começaram a contar as histórias que justamente nos anos 60, ao perceber como o futebol poderia ser explorado dentro no mundo político, o Irã fez uma força para tirar Israel da confederação asiática de todos os esportes, não apenas do futebol.

Ao ver a seleção israelense ser vice continental em 1956 e 1960 e campeão em 1964, o Irã sentiu o gostinho político e esportivo do título apenas em 1968, quando foi anfitrião. E mesmo assim ainda engoliu o fato de Israel subir no pódio com o terceiro lugar.

Como poderia um país que vivia em guerras, com uma população trocentas vezes menor do que a sua e que tinha menos de 30 anos de idade superar países centenários como o próprio Irã, Iraque, Índia... Os políticos iranianos, continua a reportagem da BBC, sabiamente cresceram os olhos e fizeram com que Israel deixasse de ser um representa asiático no mundo esportivo.

Nem Israel e nem a Fifa acharam ruim a ideia, mostra reportagem do New York Times. Desta forma, Israel conseguia se aproximar mais do mundo ocidental, da Europa. Poderia crescer em campo e em políticas internacionais, reforça a CNN. Só tinha a aprender, apesar de perder a chance de aumentar o número de conquistas. Já a Fifa ficava amiga dos dois lados, em uma época em que o petróleo passou a ser uma moeda bem forte.

Agora, porém, mais de 50 anos depois após a sua primeira e única participação, no México, Israel voltou para a Copa. Passou pelas eliminatórias europeias, ficou atrás apenas da Itália. Venceu Portugal na repescagem e entrou no Mundial. Assim, chegamos ao estádio em formato de concha de Doha, no Qatar.

Dezembro de 2021.

Escolta da ONU, Otan e FBI acompanham dois ônibus partindo de dois diferentes hotéis, separados apenas 12 km cada um.

O primeiro ônibus entra saudado, muita festa, gritos de guerra, cartazes com estrelas de Davi com uma faixa vermelho cortando a imagem. Uma outra mostra a estrela de Davi comparada à suástica. Muito barulho, muita festa, muitos olhares raivosos.

Sete minutos depois, entra o segundo ônibus. Muita festa, gritos de guerra, cartazes com estrelas de Davi entre duas faixas azuis. Paz, Peace, Salam e uma bandeira da Palestina sendo queimada.

Dentro do estádio o que se ouve é um silêncio ensurdecedor. Forças de segurança monitoram tudo e todos. Qualquer tipo de movimento ou manifestação é detectado. Até para se ir ao banheiro é preciso levantar a mão, pedir autorização e, acompanhado, pegar uma senha, passar por nova revista e ter 4 minutos de licença para usar a toalete.

Ninguém caminha sem ser fotografado e filmado.

Jornalistas que se recusaram a passar por raio-x foram barrados e escoltados até seus hotéis, onde lá tiveram o quarto revistado. Já os jornalistas que fizeram comentários apoiando politicamente um ou outro lado só conseguiram credencial especial e limitada apenas para ser usada no centro de mídia após intervenção da ONU.

Os jogadores passaram por revista de digitais e íntimas. Quase prisioneiros, noticiaram sites após verem as imagens pela TV.

Dirigentes da Fifa aparecem aos montes após meses sem dar declarações públicas. O alívio era evidente após a imprensa britânica iniciar um cessar-fogo sobre os inúmeros casos de corrupção dentro da entidade apenas para comentar sobre o jogo de estreia entre Israel e Irã.

Fotógrafos credenciados apenas de agências internacionais. Para não privilegiar ninguém, nenhum de Israel ou de Irã. Por ordem de segurança. Muitos profissionais já haviam passado pelos exércitos de seus países. Assim, apenas fotógrafos de agências e sem antecedentes de comentários em mídias sociais e também se sobrenomes com ascendência judaica ou árabe.

A Fifa ainda quebrou a cabeça para a escolha do árbitro. Sul-coreano, norte-coreano, italiano, americano, Nada. O brasileiro chegou a ser o favorito, mas ao ver que era cunhado do prefeito de São Paulo que tinha sobrenome árabe, desistiu. O argentino foi rejeitado por ambas delegações. Ficou estabelecido que o nome e o país só seriam conhecidos minutos antes das equipes entrarem em campo.

No vestiário, mais silêncio. Aquecimento em campo fora proibido. Quanto menos ficassem em exposição melhor para todos.

No corredor para a entrada do campo, os times se alinham. A ordem é evitar ficar encarando o adversário.

Aliás, um texto não-oficial da Fifa dá recomendações aos jornalistas. Favor evitar termos bélicos como artilheiros, estratégias, matador e carrascos.

Comentaristas recebem ordens das direções para não usar os termos ‘bombas’, ‘time de guerreiros’, ‘explodiu na trave’, entre outros. ‘Vive um drama’, então, totalmente barrado. ‘Bem amigos’, porém, nunca caiu tão bem.

Quando os times entram em campo, o único barulho é o das máquinas dos fotógrafos. Por decisão em comum acordo, pela primeira vez os hinos não seriam tocados. Neste caso nem foi para evitar que o sentimento patriótico tomasse conta, mas porque não chegaram a um acordo de qual país teria o seu hino executado primeiro.

O árbitro, um suíço, acompanha as equipes em campo, as seleções são apresentadas e cada país vai para o seu canto. Após uma melhor de cinco na mesa do diretor da Fifa, ficou estabelecido quem ficaria à esquerda e quem ficaria à direita.

Times preparados, goleiros e suas luvas revistadas novamente. Todos se olham e se perguntam. Cadê a bola?

O juiz também faz cara de interrogação. Corre para a mesa do quarto árbitro, que é de Luxemburgo, e diz que as forças de segurança ainda não haviam conseguido autorizar a entrada da bola. Na fiscalização a bola fora impedida de entrar.

“Parece que um chip impediu que a bola fosse autorizada a ser colocada em campo”, diz o jornalista da BBC.

Muito corre-corre, caras de absurdo, o árbitro suíço tenta contornar, arruma um telefone celular, mas não parece obter sucesso. Claramente está tomando um esporro homérico, diz comentarista de uma rede francesa.

O jornalista do Guardian começa a escrever em tom irônico no site que o chip dentro da bola não tem a ver com outra coisa que não seja para ajudar o árbitro para saber se a bola entrou ou não. Reforça que o mesmo recurso fora utilizado pela primeira vez na Copa de 2010 no jogo entre França e Honduras.

A força de segurança, porém, se mostra irredutível e deixa bem claro. Com esta bola, não haverá jogo. Que arrumem uma sem nada dentro. Que arrumem uma bola das antigas. Dirigentes da Fifa se descabelam com o atraso da partida com as multas que terão que pagar a seus patrocinadores. “Nem no Brasil isto aconteceu”, reforça o jornalista britânico do Telegraph.

A muitos quilômetros dali, um governo lamenta o ocorrido no ouvido do árbitro. Tanto investimento para monitorar a bola a nosso favor e agora nos fodem! Como é que vou explicar aos chefões, caralho! Como vou dizer que o dinheiro gasto para o chip ser usado a nosso favor não será usado? Você, juiz filhodaputa, sabe que as casas de apostas vão tirar parte do investimento dos bancos suíços, não sabe? E avisa o corno do juiz de Luxemburgo que ele e o país dele estão fodidos! F-o-d-i-d-o-s, entendeu? E desligou para em seguida a transmissão sair do ar.

30/11/2013

Revenge

Claudinho e Tiquinho sabiam por que estavam lá dentro daquela kombi aperfeiçoada para entregar jornais, às 2 horas da manhã.

Castro há tempos tinha perdido o emprego por conta da baixa circulação dos jornais, mas convenceu de uma forma não convencional a colocar os dois amigos dentro daquele veículo 1978 para deixar Guarulhos em direção aos Jardins.

“Porra, véio. Você é maluco ou o quê? Cê tá virando 13 igual ao Marcola?”, disse Claudinho.

Castro não gostou da comparação com o Marcola, que encheu a cara de cola e crack e teve que ser amarrado na cama pela irmã. Mas Castro tinha outra prioridade. E não era mandar Claudinho tomar no cu. Até porque naquele momento ele precisava de Claudinho, o mais forte de todos.

O noticiário que tomava conta dos jornais, sites e televisão mexeram com ele. Aquilo não era certo. O mundo acabando e todos só falando sobre isto! Ainda mais porque cresceu lendo aquelas histórias em revistas já desbotadas que sua mãe pegava no lixo da patroa. Nos Jardins.

Patroa, aquela vaca. Usou como desculpa a tremedeira nas mãos da mãe para anunciar a demissão. Coincidentemente foi justo na criação da nova lei das faxineiras. “Filho, deixa isto para lá. Vamos tocar em frente”, disse a mãe, passando o café na cafeteira Walitta dos anos 90 que a patroa havia jogado fora há vinte anos.

Não, mãe. Aquilo não podia ficar assim. Ele não falou, mas pensou. Havia um grito guardado dentro de seu pulmão.

Foi quando aquele noticiário infame começou a tomar conta em todos os cantos.

Claudinho e Tiquinho. Eles me devem uma. Ou eles acham que eu esqueci o dia em que ajudei eles ao ser o motorista da kombi para buscar o que restou da cerveja virada do caminhão da Nova Schin na Dutra. “Foi um acidente, Castro, acredite. Não tivemos nada a ver com isto”, disseram. O duro foi acreditar que eles haviam pedido a kombi emprestada meia hora antes da carreta virar.

“Porra, Castro. Mas a gente pode se fodê feio. O que cê ta querendo é coisa de 13, porra!”, disse Claudinho, já na entrada da marginal Tietê.

A mesma frase foi dita por Claudinho no caminho de volta, mas desta vez na Vila Gustavo. A ideia de voltar pela zona norte foi para evitar uma possível blitz na Dutra. Castro concordou em ir por dentro e até com a indignação de Claudinho, mas apenas internamente. Sabia que aquilo tudo era uma loucura, mas ele tinha que dar uma resposta para aquele povo metido.

Tiquinho estava no meio dos dois no banco da frente, o único que restava daquela kombi. Não sabia se gritava pela loucura ou por estar sem cinto naquele veículo dirigido freneticamente por Castro.

“Mas onde você vai enfiar esta merda, agora, Castro? Esta bosta é maior que o Tiquinho e deve ter uns 15 quilos, caralho!”

Castro não sabia. Primeiro ele ia mostrar para a filha. Queria que a pequena e as amiguinhas dela tivessem o gosto de ver de perto o objeto, sem terem que ser encaradas por aquela bando de filhodaputa dos Jardins, saltitando em seus saltos, suas banheiras com quatro rodas e perfumes caros. Mais do que isto: queria poder ver a cara do filho da patroa com os olhos vermelhos e aquele cabelo lavadinho chorando porque tinha perdido algo pela primeira vez na vida.

No dia seguinte, sem ter conseguido pregar os olhos de ansiedade, leu e viu em todos os canais. Todos.

ESTÁTUA DA 'MÔNICA PARADE' É FURTADA EM SÃO PAULO


Estátua da Mônica é furtada da rua Oscar Freire, em São Paulo


Escultura da Mônica é furtada nos Jardins


Policiais civis estão à procura da estátua da Mônica furtada na rua Oscar Freire. Investigadores procuram câmeras de vigilância para tentar descobrir alguma pista.

Tiquinho e Claudinho não saíam de casa. Castro via tudo aquilo com uma mistura de satisfação e medo.

Guardou a kombi e seu troféu por quatro dias. Até a mãe pedir uma carona até o pronto-socorro logo na manhã do dia seguinte. A tremedeira na mão estava pior.

Foi até o matagal atrás de casa, deixou a estátua em pé. Ele garantiu a Claudinho e Tiquinho que não jogou. Deixou em pé e que, com voz de criança, ligou para avisar a polícia de um orelhão público.


Dias depois o noticiário era outro. Haviam roubado o Sansão. Castro jurou a Claudinho e Tiquinho que ele estava fazendo um bico do outro lado da cidade. Desligou o telefone e ficou encarando aquele ser orelhudo com um sorriso dentuço à sua frente. Mas agora sem medo. Só satisfação.